segunda-feira, 19 de março de 2012

Erros e Acertos


Não tem erro. Se temos mais do que 45 anos, nosso corpo de hoje, por dentro e por fora, revela o que fizemos dele durante a vida toda. Tenho pensado nisso e, por uma dessas leis da sincronicidade que não entendo mas que acho maravilhosas, ouvi de um médico na TV e da Christiane Torloni a mesma frase. Ela diz que seu corpo carrega todos os erros e acertos do passado. No caso dela, sendo bem maledicente, acho que o corpo ainda carrega umas tentativas de acertar o que o tempo tratou de piorar. Não importa.

Mas para que pensar nisso? O estrago já está feito. Já bebemos, já fumamos, nos drogamos se for o caso, já dormimos pouco, fomos das festas direto para o trabalho, já não fizemos exercício ou fizemos em excesso, já nos estressamos com e sem motivo, já trabalhamos dia e noite, já comemos todas as porcarias do mundo, outros já não comeram nada, já nos desafiamos de todas as maneiras. Para quê, se não tem volta?

Penso eu que para tudo, menos para nos arrependermos. Acho sim, que para entendermos. Para nos resignarmos ao ter que deixar todas as inconsequências para trás e passar a nos cuidar melhor. E como é gostoso cuidar do animal que somos, que nos empresta o corpo e anseia por carinho, atenção, afagos, conforto  e muita, muita sinceridade e olho no olho. Ninguém maltrata um bichinho de estimação ou uma criança. É o que viramos nesse “terceiro ato” da vida.

Para  muitos de nós, por anos e anos o corpo foi uma entidade invisível. Por muita falta de informação no nosso tempo e porque tínhamos uma visão puramente ocidental. Felizmente a cultura oriental veio bater em nossa porta e tivemos a oportunidade de rever muitas coisas.  Claro que sempre há exceções, mas estou falando da maioria da minha geração. Lembro que num dos períodos brabos de “virada”no trabalho por conta de um dos planos de estabilização econômica do governo, períodos em que nem íamos para casa trabalhando dia e noite para acertar todos os cortes de zeros, tablitas e etc no sistema gerador de extratos dos clientes, um sábio homem mais velho me disse: “preste atenção porque a saúde é uma conta de estoque sem reposição. Tudo que você gastar demais agora, faltará lá na frente”. Claro que nem liguei. Continuei estressadíssima, fumando um cigarro atrás do outro e passei sei lá quantas noites dormindo 2 horas por dia. Hoje entendo perfeitamente a seriedade do que ele dizia.

Hoje adoro cuidar de mim. Adoro ter parado de fumar. Adoro não gostar mais de beber. Adoro não perder mais meu tempo e energia com o que não importa e, sobretudo, com quem não me acrescenta nada, adoro optar pelo sono. Acho perfeito cultivar meu intelecto e meu espírito junto com o corpo. Finalmente entendi que os três é que formam o que sou e que, cuidando de um, estou cuidando de todos. São inseparáveis.

Quando se cultiva a compaixão, o amor, a fé no ser humano, a alegria, não é só o espírito que fica mais bonito, isso aparece no corpo, na pele. Da mesma forma uma boa alimentação torna o espírito mais leve e favorece as curas físicas e emocionais. 

Parece que há um tempo para cada coisa. Para cada estilo de vida. Para cada escala de valores. Tirando as pessoas muito fora da curva – de um lado aquelas que sempre souberam que o corpo era sagrado e de outro, aquelas que o detonaram de forma irreversível, na média temos tempo e vigor para viver quase tudo, para conhecer, refletir, mudar tudo e deixar para trás o que já está no tempo errado. Sem saudosismos nem arrependimentos. Serenamente.

Me parece que “erros e acertos” do passado talvez não seja a melhor forma de definir o que nosso corpo reflete hoje, porque essa expressão é cunhada segundo a ótica do que sabemos hoje. Prefiro pensar que o corpo reflete nossas escolhas que foram sempre certas porque eram a forma como sabíamos, podíamos e queríamos viver. E todos nós sabemos que esse “querer” tem origens tão profundas que na maioria das vezes são inacessíveis. Abaixo a culpa e a revisão do passado impregnada de conceitos de hoje.

O que tento passar hoje, para pessoas de qualquer idade, é a noção do quanto é gostoso cuidar do corpo. Por dentro e por fora. Não porque mais tarde ela colherá os frutos desse cuidado, mas porque é agora que ela será mais feliz e inteira.









domingo, 18 de março de 2012

Pausas


 
De volta ao Blog. Será? Às vezes, pausas obrigatórias nos levam também a pausas naquilo de que mais gostamos e que não estamos tecnicamente impedidos de fazer. Mas o emocional impede, e como, certas atividades.

Hoje, me aventurei a entreabrir o armário em que estava trancada durante essa segunda leva de dores excruciantes. Estando a porta entreaberta, fui caminhar na Lagoa e o mesmo ritual se repetiu. Primeiro, minha boca abriu diante da beleza do fim de tarde e não pude pensar em nada. Minutos de contemplação que pareceram uma década. Vencida essa etapa, os pensamentos começaram a se multiplicar e a querer tomar forma e, ato contínuo, me veio a vontade de escrever.

Aqui estou, sem saber bem o que pensei porque de um ponto em diante, a dor era tanta que me raptou as reflexões e se aboletou soberana em minha cabeça. Mas me lembro que estava pensando nos efeitos que produzem estas paradas, pausas forçadas. 

De um modo geral, vamos pela vida saudáveis. Trabalhamos muito, fazemos o que dá e como dá as outras atividades que nos dão prazer ou que são obrigatórias. Agenda muito cheia na grande  maioria dos casos. Cuidar dos filhos – já grandes requer muito mais tempo porque cuidar significa ouví-los, trocar, propor atividades, ralar junto quando é preciso; cuidar de nós mesmas – aparência, espírito, intelecto, nos dar prazer, namorar ou cuidar do casamento; ir a festas, encontros, cultivar as amizades, viajar. Ah e viajar, normalmente de férias. Férias não contam como pausa ou são uma pausa prevista, normalmente ansiadas por conta do descanso de que estamos precisando.

 Quando se tem uma pausa por motivo de saúde, como eu estou tendo, tudo muda muito de figura. A agenda de todo mundo é cheia, a sua é vazia. Você precisa resolver como vai encher seu dia tentando não sentir muita dor, e tentando arrancar de você vontade de fazer qualquer coisa.  Pior quando não se tem um diagnóstico, ou quando tem e você tem certeza de que está errado. Quantas decepções quando o problema é a saúde. Ou pior, a doença.

Tem-se muito tempo para refletir e se decepcionar. Com quase tudo e todos os envolvidos nesse absurdo que é a venda de conhecimento para quem está doente. Eu teria feito um bom pé de meia se não tivesse pago o monte de médicos com os quais me consultei e que, na melhor hipótese, não acrescentaram nada e na pior, erraram  redondamente. Sem qualquer constrangimento. Difícil acreditar. Ouço sempre que a qualidade da relação determina a cura. Mas como? 

Tenho agora meu pé muito atrás com quem promete cura: física ou espiritual. Com quem promete estar ao seu lado sempre que precisar. Isso não existe. Sua cura está só em você. Conheça-se, ouça seu corpo, sua cabeça e seu espírito, lide com eles, e deixe o médico fazer o estritamente necessário. E grite se você achar que está errado. O grande, o enorme erro é se iludir.

Nessa pausa forçada, você também compreende a diferença entre amigos e companheiros de vida saudável. Não que esses últimos sejam maus ou mereçam desprezo, mas não são amigos. Todos repetem a plenos pulmões que são amigos para o que der e vier. Não são e a gente precisa se acostumar com isso na boa. É legal essa faxina interna porque no fundo, você também de desobriga de um monte de coisas que só na pausa é que você vê que não te dizem respeito. Um enorme peso vai embora. O equívoco é muito pesado.

Na pausa forçada dá tempo de questionar seu trabalho. De se decepcionar com ele também e dá tempo de pensar em fazer outra coisa se e quando você tiver condições. Dá tempo de fazer planos novos e adaptados à sua nova deficiência. 

Dá tempo de se decepcionar com muitos que não sabem lidar com a deficiência. Que têm a saúde como princípio para a convivência. Talvez não por mal mas por não ter aprendido diferente.

As pausas forçadas são muito boas. Oferecem a oportunidade de rever tudo, passar tudo a limpo e ainda faxinar a vida e o coração.

Não desejo a ninguém pausas forçadas por motivos de saúde. Ninguém merece. Se acontecer, aproveitem como estou tentando aproveitar a minha. Mas se felizmente não acontecer, tentem pausas de avaliação uma vez ou outra. Não só férias de lazer.  Seria ótimo se pudéssemos ter certeza de que o caminho da vida seria o dos filmes. Nascer, crescer, formar uma linda família, ficar velhinho com o apoio dos filhos e morrer serenamente. Não temos certeza. Então, não custa conhecer um pouco do mundo em que vivemos, das mentiras em que nos fazem acreditar, e tentar traçar um plano B, para o caso da vida nos obrigar a fazer diferente.

Foi nisso que andei pensando em minha caminhada ao cair da tarde. Fui caminhando e fazendo um balanço, me lembrando do que tem se passado em minha cabeça e coração. Pensei também que de forma alguma sei escrever contos. Se sei escrever alguma coisa, alguns dizem que sei, é sobre a realidade. Contos não. Estou pensando muito seriamente em deixar o grupo de mini-contos. Papo para outra escapada.
                                                                                                                                                  


terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Chico Buarque de Holanda

Fui assistir “Chico”. Obviamente o show de Chico Buarque que não por acaso se chama “Chico”.
A minha leitura é que nele e no disco de mesmo nome, Chico Buarque é para os íntimos, para os que o chamam de Chico, por convivência real ou por tietagem escancarada. Aqueles que sabem todas as suas músicas, que acompanham de perto sua trajetória, e por que não dizer, o amam de paixão.
Quer dizer: uma legião sem fim de fãs. 

Como me encaixo nessa turma, daqui para a frente o tratarei por Chico. Com todo respeito.
Digo isso porque as músicas do disco novo são muito reveladoras de quem é Chico agora e as antigas, escolhidas para compor o show, não são as mais conhecidas, mas talvez as que ele gosta mais, tem mais prazer em cantar, revelem melhor sua versatilidade, enfim... nos mostrem “Chico”. A roupa preta, que sempre lhe cai tão bem, e a simplicidade de cenário e iluminação, terminam o recado: viemos ver e ouvir (muito mais ouvir) “Chico”.
O que parece (para quem o acompanha), é que Chico Buarque de Holanda, chegou a tal complexidade, que a riquíssima simplicidade com que se mostra hoje me parece ser a consequência de ter vivido 68 anos não desperdiçando uma só influência, um só papo, uma só revelação.
É a consequência de ter estado atento, antenas captando sempre tudo, muitas vezes se autodestruindo na busca do que havia de importante e relevante à sua volta.
Sim, porque Chico Buarque não é um acidente.  Eu o definiria como um “espaço/tempo” em que tudo se misturou, e sua cabeça processou, redefiniu e ressignificou  para, a partir daí, criar o que talvez haja de mais belo na nossa música. Chico foi nosso tradutor. Às vezes  não sabíamos nem bem de quê, mas o entendíamos com a alma.
Chico é Pixinguinha, Cartola, Noel,Luiz Gonzaga,Dorival, Vinícius, Antônio Brasileiro (muuiiiitoooo Tom), João Gilberto, sua letrada e fascinante família, seus irmãos, os amigos dos seus pais, nossa... quanta gente mais.
O Chico é a Marieta, suas filhas, seus netos. 
Chico é a ditadura, a censura, o exílio.
Chico é os livros que leu, os que escreveu, as noites que imagino que não dormiu lutando com as palavras, a tietagem que o cerca, as mulheres que o amam, os homens que o odeiam.
Chico é as noites de boemia, o monte de uísque que tomou, os porres, os cigarros, talvez as drogas. As desavenças conjugais, as diferenças com os outros, as profundezas de sua solidão em Paris ou aqui, a capacidade imensa de conviver e ser gostado.
Chico é a simpatia, o sorriso, a empatia infinita sem a qual não falaria de putas, mulheres abandonadas, homens trabalhadores, gente humilde, marinheiros, mulheres de marinheiros, casamentos desfeitos de todas as formas, paixões e alegrias com tamanha carga emocional.
Não. Tenho certeza: Chico não é um acidente.
Tampouco é um acidente que, ainda por cima, tenha aqueles brilhantíssimos olhos verdes, que tenha até hoje aquele ar de menino tímido, que tropece no seu próprio charme.
Alguém o fez assim completo para que prestássemos atenção. Ele tinha coisas importantes a dizer. E aproveitou todos os seus dons. Não desperdiçou nada. Deu-nos tudo que tinha e deve ser por isso que hoje, mesmo aos 68 anos, seu semblante é pleno e feliz. Talvez seja o dever cumprido.
Me lembro que quando Caetano fez 50 anos, eu fui ao show e pensei: se ter 50 anos é isso, estar tão lindo, sereno e pleno, quero que os meus 50 cheguem logo. Não foi diferente com Chico Buarque. Mas hoje tenho certeza de que é preciso merecer essa plenitude e essa alegria. É preciso ter sofrido e trabalhado muito. Sofrido ao menos para se achar em meio a tantas freqüências diferentes.
Só acho que hoje, Chico poderia pensar melhor sobre o que representa. Quando diz em “Querido Diário” que pensou em ter uma religião, em sacrificar uma ovelha, ele adota o tom do ateu que sempre foi, mas que agora me parece equivocado.
Não sei se deveria pensar em ter uma religião mas  simplesmente agradecer por ter sido escolhido como o cara que viveria, perceberia e decodificaria o propósito primeiro de tantos talentos, acontecimentos, alegrias e desventuras de uma linha de tempo muito maior que sua vida cronológica, e saberia misturá-los e transformá-los em pura emoção, daquelas que são capazes de nos fazer chorar um show inteiro.
Talvez só acender uma vela.
Fala muito mais alto quem fala ao coração.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

A pele que habito


Só hoje fui ver “A pele que habito”.
Sempre que entra em cartaz um novo filme de Almodóvar, fico louca para assistir e vou na primeira leva. Por acaso com esse não foi assim e talvez tenha sido bom. Não fui ver um Almodóvar qualquer, guardeio-o como um tesouro para o início do ano para sentir coisas muito  diferentes do universo feminino colorido e triste. Claro que estou até agora pensando, capturada que fui pelo filme de terror de Almodóvar.
O filme é tenso, muito tenso, cria um enorme mal estar. É um filme de terror sem os gritos  e sustos do gênero. Mas para mim vai além. Acho que deve ser a tensão de habitar a pele errada. Deve ser muito tenso. Penso que todos nós devemos nos perguntar, quando não estamos bem, onde é que a pele não está de acordo com a alma.
Também não sei se o nome Vicente foi proposital numa referência a Vincent Van Gogh, outro que não suportou a própria pele e teve que terminar com a vida.
Que possibilidades terá o Vicente do filme? Na minha opinião nenhuma. Só a morte. Como de resto, nenhuma possibilidade teve a ex-mulher que, ao ver seu reflexo queimada, não viu alternativa senão atirar-se pela janela.
Ter um interior intacto, não basta: a pele tem que ajustar-se.
Ter a pele perfeita não garante identidade: o interior deve dar seu “de acordo”.
A primeira frase do filme já nos mostra o equívoco do cirurgião inescrupuloso, acostumado a lidar com peles que as pessoas provavelmente lhe pediam para ajustar à suas almas: “não basta salvar a vida de um queimado. É preciso lhe dar um rosto. O rosto é o que nos define”.
Foi por falta desse rosto que viu sua mulher saltar para a morte e, depois, quando se viu tomado pelo ódio por Vicente (o rapaz a quem ele atribuiu a culpa pela morte de sua filha), tratou de usá-lo para reconstruir sua mulher com a pele perfeita que não queima e não sente dor, mas também (vingança suprema) dar-lhe um invólocro incompatível que, ele sabia, seria intolerável - ou não sabia, louco que era.
Ódios tornam-se amores, o criador esquece-se da alma da criatura e se apaixona pela pele que construiu - leia-se rosto e corpo da ex-mulher.  Na minha opinião, o cirurgião nem sabe que pele lhe serve mais – perdera a mulher  para a falta de rosto, e a filha para a falta de alma. Testemunhar o salto e a figura da mãe – sabendo que homens podem produzir aquilo (o incêndio com o Tigre), tirou da menina qualquer possibilidade de confiança e afeto pelo ser humano.
Robert é um homem aprisionado em sua própria pele e alma - ou nem uma coisa nem outra, um homem que desconhece seus limites e "onde habita",   com a arrogância de um Deus que pretende dar e tirar peles transgênicas a qualquer preço, e cujos castigos e vinganças que conhece, passam por essa manipulação. Fazer a barba de Vicente é uma amostra do quanto "lidar" com peles lhe dá prazer.
O filme é trágico. Muito trágico. Pessoas comuns impulsionadas para a morte por acasos que aparentemente não deveriam pertencer a suas vidas. Pessoas incapacitadas de lidar com seu dentro x fora.  
A incompatibilidade dos  dois parece que não deixa saída. Ou há e Almodóvar não vê? O que dizer do Fantasma da Ópera, do Corcunda de Notre Dame, do Homem Elefante? E do mundo de almas atormentadas de artistas, intelectuais e pessoas comuns que nem por isso só vêem a morte como solução? 
Ou sou eu que não vi ainda uma "segunda pele" no filme e sim, Vicente vai achar um jeito de viver com sua nova pele? 
Não acho que haja resposta.
Para mim, fica a pergunta: o que, de fato, nos define? O filme é uma história de terror gratuita ou quer nos fazer pensar?
Sou obrigada a confessar que mais uma vez abriu-se a temporada Almodóvar. Toda vez que assisto a um filme novo, morro de saudade dos anteriores e os re-vejo quase todos em seguida. 
Não vai e ser diferente dessa vez. amanhã começo a alugar os filmes antigos e terei um delicioso mês de janeiro recheado de Almodóvar.
A Pele que Habito permanecerá em minha cabeça por muito tempo. Provavelmente chegarei a muitas conclusões, sozinha ou com a ajuda dos amigos, mas para mim foi dos melhores filmes dos últimos tempos.

domingo, 25 de dezembro de 2011

Como vão as coisas

_Como vão as coisas? Perguntou-me um amigo que há tempos não vejo e com quem, na verdade, nunca tive uma intimidade muito profunda nem uma significativa afinidade de idéias e sentimentos, mas de quem gosto bastante, assim do nada. Tratava-se de uma dessas trocas natalinas de e-mails.
Parei cinco minutos para pensar no que responder. Claro que a pergunta era uma simples formalidade. Uma pergunta protocolar. Não era para ser respondida, mesmo porque duvido que ele estivesse de fato interessado na resposta. Quem se interessou pela resposta fui eu.
_ Como vão as coisas?
_ Como podem ir as coisas?
O mais correto sei que seria responder: está tudo ótimo! E finalizar o diálogo. Sempre soube que o chato é aquele que leva essas perguntas a sério e aproveita a deixa para relatar suas mazelas.
Mas as coisas podem ir só bem ou só mal?
Poderia dizer está tudo preto e branco ou tudo colorido? Cinza?
Ou dizer: algumas coisas vão bem outras nem tanto.
Meus pais estão velhos e doentes, tenho freqüentado muitos hospitais e já me preparo para a tristeza do momento que se aproxima inexoravelmente da perda dessas pessoas tão amadas. Por outro lado, a cada dia amo mais minha filha, meus irmãos e meus amigos e confirmo minha capacidade de conviver e amar, sabendo que foram esses velhinhos que me ensinaram a adorar as diferenças, a prestar atenção, a ser curiosa e pelo menos tentar ser generosa e amiga. Todos os dias tenho certeza de que eles não morrerão porque estou impregnada deles até meu último fio de cabelo. E minhas memórias afetivas mais distantes, diariamente me dão conta do quanto estamos ligados a um nível energético muito sutil e elevado, e que esse fio também é vida.
A menopausa me causa transtornos, engordei, mas consegui parar de fumar e passei a me sentir vitoriosa e de quebra recobrei o imenso prazer de  respirar, me exercitar, correr ao ar livre. Quanta alegria!
Minha mão está paralisada, mas cada vez as palavras me surpreendem mais e enriquecem mais minha alma que não precisa de mão. E o Grupo dos Minicontos foi uma bênção que recebi e nele tenho trabalhado e descoberto uma criatividade insuspeitada. Minha relação com a escrita aumenta em profundidade a cada dia e de certa forma antevejo um futuro concreto para essa descoberta que é muito séria mas também um novo e imenso prazer!
Não tenho trabalhado como deveria e precisaria, mas de alguma forma mágica, acertei minha vida financeira esse ano e, se não posso fazer extravagâncias, elas podem muito facilmente ser substituídas por deliciosas conversas e gargalhadas com pessoas que realmente têm a ver comigo!
Não estou apaixonada como gostaria, nem consegui achar alguém que me despertasse aquilo pelo que venho esperando (ou apenas desejando, ou sonhando) há anos: uma pessoa para dividir a vida da forma como imagino: rica. Com muita troca, muito aprendizado, muita conversa, muita curiosidade juntos, muita intimidade e cumplicidade. A contrapartida é que, estando sozinha, sou levada a fazer descobertas indescritíveis que acompanhada eu não faria, e sou lançada a breves e intensos amores que, se se revelam equivocados, também deixam seu rastro de vida e aprendizagem.
“Queira o que você tem” dizem os mais sábios.
Às vezes fico deprimida e não quero sair de casa. Nem do quarto, nem da cama. Mas aí o telefone toca, é uma amiga divertidíssima (notavelmente todas as minhas amigas são divertidas, ou temos a sabedoria de saber nos divertir) e rio como uma criança durante horas e a depressão serviu só como contraponto para a alegria radiante que vem depois.
Sinto dores que não deveria mais sentir. Isso irrita, maltrata, mas, como explicar todos os milagres, os acasos que me fazem conhecer pessoas que sabem amenizar todas as minhas dores? O que dizer da sorte que tenho em meus encontros e em minhas decisões? Deixo o inexplicável onde está e não tento entender. Só me espanto e me encanto.
Vou passar o verão sem o corpinho que gostaria. Mas aí tenho que dizer: dane-se.
Ativar o modo dane-se é preciso em muitos momentos.
Às vezes não quero ver ninguém: não por tristeza ou depressão. Só não quero. E que serenidade nas leituras, filmes, nas horas escrevendo ou pensando.
O nome disso é paz. E ela é minha e não depende de ninguém.
Os dias e os anos se somam e cada vez me desprendo mais das minhas certezas – ou dou a elas menos importância, minha razão se curva diante das minhas intuições e emoções, o mundo material assume um lugar diferente, a profundidade do humano se mostra sem rodeios e parece uma velha conhecida. A finitude e a presença da morte assustam muito menos que a degradação a que se pode chegar em vida - e a ela pode-se dar o nome de indiferença, agressividade, cinismo, egoísmo, inveja, descaso, dissimulação, sociopatia, psicopatia e tantas outras deformidades de carater.
Quantas coisas mais eu poderia dizer, boas e más. Uma única vida, tantas delícias, tantos horrores. Uma minúscula existência que vai tão mal do mesmo jeito que vai tão bem. Precisa haver saldo? Penso que não e nem haveria unidade de medida para o quanto as coisas vão bem ou o quanto vão mal. Acho que somos assim: humanos, sensíveis e expostos todos a tudo que é bom e mau. Grande e pequeno. Saudável e doente. Feio e bonito. Sublime e miserável.
Como vão as coisas aos 54 anos?                                           
Pensei nisso tudo assim num flash e como as coisas vão bem à beça e também mal à beça, só consegui responder ao meu amigo:
 - as coisas vão.
Para saber como vão as coisas com alguém, tem que estar perto. Que seja só de coração ou de alma. Caso contrário, as coisas vão.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Uma espera, um nascimento


Vivia fugindo de ter que esperar
Espera dava tempo de pensar
Que não ia dar certo, que ia falhar

Um belo dia resolve encarar
A coisa tropeça, ameaça quebrar
Mas dá certo, ela nasce. E tem muita verdade pra me mostrar

Mamãe você teme. Por que minha mãe?
Calma.  Vai tudo dar certo. Você pode esperar
Não  tema. Relaxe. A vida não corre pra te agradar










quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Vida sem título

Fui feliz mesmo quando não fui
Ser ou não feliz é a mesma coisa quando o estado mental
Coloca a propensão para a alegria em primeiro lugar
E nasci, ah como sei que nasci, com o riso frouxo e um gosto de coisa boa na boca e um cheiro de aconchego no ar.

Chorei muito também. Chorei de tanto querer dividir o que tinha de feliz
Chorei porque um certo drama fazia parte dessa peça em alguns atos
Chorei porque o ritmo faz parte da açao e do que se quer provocar.
Chorei pelo mesmo motivo por que ri: precisava de aplausos no final.                      

Assim, cortinas subiram e desceram
Assim, repeti cenas de sucesso garantido e aperfeiçoei outras mais toscas que com o tempo ganharam em densidade
Assim, aprendi a ter cada idade, sem exagerar ou perder em intensidade
Aprendi a fingir, a amar, a soluçar, a não me importar, a odiar o palco, os textos, os figurinos e os atores

E abandonei.
Dei adeus a todos os que engendravam aquela vida que parecia – por única, sem saída
Bilheteiras que vendiam com um riso zombeteiro, o ingresso que não valia o preço para um publico iludido e do avesso.
Porteiros que os rasgavam e indicavam o lugar, sabendo onde se sentiriam piores as pessoas ingênuas que pagavam para me ver
Dramaturgos e diretores, que nunca direi de onde tirei, colegas com quem contracenei, mulheres loucas que me maquiaram, e outras que me vestiram com cuidado, para cada ocasião verdadeira ou não.

Abandonei a única vida que conhecia
E hoje estou aqui, como quem acabou de desaprender como se enxerga, escuta ou fala
Procurando o que devo dizer, o que posso ouvir e o que convém ver,
Para conquistar uma leveza que nunca tive
Para conseguir uma felicidade que não seja igual a ser infeliz
Para rir com verdade, para chorar com piedade, para amar com a intensidade de quem não precisa mais fingir, nem arrancar aplausos, nem muito menos, tirar a maquiagem quando termina
O espetáculo.