sábado, 17 de setembro de 2011

What if?

E se eu quisesse mudar de vida agora?
E se eu resolvesse ser feliz e despreocupada?
E se eu esquecesse que tenho uma doença e nem pensasse no que ela fará de mim?
E se eu pudesse amar o mundo todo e ninguém em especial?
E se os homens não mais resolvessem por mim?
Se eu me achasse maravilhosa e parasse de me desculpar?
Se eu aproveitasse cada minuto como se fosse o último e não tivesse medo do ridículo?
Se eu batesse a porta e saísse por aí com a tranqüilidade dos que nada devem?
Se eu assumisse minhas fragilidades e nem ligasse para o que pensa o mundo?
Se eu achasse que o amor não é tão complicado e pudesse me apaixonar mais facilmente?
E se eu não confundisse sexo com amor? Prazer e dor?
Se eu me danasse toda mas realizasse meus desejos?
Se parasse de achar que a vida é uma sucessão de obrigações e uma chatice?
Se eu aproveitasse as facilidades  que deus me deu sem culpa?
Se eu ficasse irreconhecível?
Se eu mudasse o visual e nem me importasse em parecer um pouco burra, um pouco fútil?
Se eu ficasse invisível? Ou virasse estátua na pose que me conviesse?
Se nunca mais eu esperasse um telefonema?
E se eu nunca mais esperasse nada que não dependesse de mim?
E se eu eu, finalmente, parasse de fingir?
Parasse de encenar?
Assumisse minhas fraudes?
Rasgasse minha alma e abrisse minhas feridas que ficariam cheias de moscas e infeccionariam?
Se eu quisesse purgar todas as mentiras pela pele? Pelo pus que dela sairia?
E se eu quisesse derreter? Virar uma poça de sangue e de fluidos corporais nojentos?
Se eu quisesse agora, me revirar, vomitar, botar todo meu nojo pra fora?
Se eu quisesse, eu não sei se poderia ou conseguiria
Mas o se, é sempre uma porta que não se fechou completamente.






sábado, 10 de setembro de 2011

Tem coisas que a gente adoraria ter escrito

Só hoje, vendo um post, é que me dei conta do quanto essa música é uma inspiração maravilhosa

Realce Gilberto Gil

Não se incomode
O que a gente pode, pode
O que a gente não pode, explodirá
A força é bruta
E a fonte da força é neutra
E de repente a gente poderá

Realce, realce
Quanto mais purpurina, melhor
Realce, realce
Com a cor do veludo
Com amor, com tudo
De real teor de beleza

Não se impaciente
O que a gente sente, sente
Ainda que não se tente, afetará
O afeto é fogo
E o modo do fogo é quente
E de repente a gente queimará

Realce, realce

Quanto mais parafina, melhor
Realce, realce
Com a cor do veludo
Com amor, com tudo
De real teor de beleza

Realce, realce

Não desespere
Quando a vida fere, fere
E nenhum mágico interferirá
Se a vida fere
Como a sensação do brilho
De repente a gente brilhará

Realce, realce
Quanto mais serpentina, melhor
Realce, realce
Com a cor do veludo
Com amor, com tudo
De real teor de beleza



Ainda por cima é aninadíssima e altíssimo astral. Quem brilhou, brilhou. Quem não, talvez venha a brilhar! Mesmo que sem brilho haha
Cantem bem alto no link

http://youtu.be/WLGyrsHe0eg

Lava  a ALMA!

A minha paz - uma ousadia não prevista

Nunca pensei que pudesse me aventurar e ainda por cima publicar, algo de que tenho vergonha e que talvez nunca venha a me perdoar. Mas que que eu faço se meus caminhos se enovelam se misturam, se emaranham e viram  um nó indesatável? Hoje descobri com todas as letras que sou extremamente corajosa. Repassei minha vida quase inteira e vi um milhão de erros, só não encontrei covardia.
E vou provar isso, publicando uma "poesia" (desculpem-me os poetas)  que cometi em 10 minutos. Sei que é tola - conheço muito as boas poesias, Mas saiu de mim e, portanto, não pode estar tão errada assim. Acho que os amigos, por mais que riam baixinho, me perdoarão:

A Minha Paz


A paz que habita em mim sentiu um frio, um arrepio
A paz que costumava andar por aqui é um passarinho alegre que parou de  cantar
De um lado para o outro na gaiola, assustado...
Pressente um gato?

Providencio às pressas, água, comida, carinho
Leio em voz alta poemas lindos de muitos poetas maiores, na  esperança de que sábias palavras o tranquilizem e voltemos a descansar.
Inútil. 
Pressinto, eu também,e não sem estremecer, que é das minhas palavras que ele precisa agora.
Afago meu passarinho como uma mãe que extraiu de si esse filho,que levou a vida toda pra nascer.
Esse cantorzinho que é frágil, peninhas suaves, inseguro e trêmulo
é a minha paz, a minha frágil e trêmula paz. Sempre por tão pouco ameaçada.

Curioso destino:
Me cabe salvar essa criaturrinha que agoniza na fria noite, sob meu úmido e desesperado olhar
E receio que só tenha um jeito: apostar.
Soltá-la no mundo, aos perigos, às estranhezas, perdas, desilusões e estranhamentos
Saberei assim se essa paz é minha mesmo ou foi inventada.  Como saberia  se é tão protegida e enclausurada.?
Aperta-me o peito.
Se morrer,  meu passarinho não me salvaria nem eu a ele e a ilusão seria  inútil
Se viver, não precisaremos mais de gaiolas.
Passeiem gatos tristes ou alegres, passeiem momentos indizíveis, passeiem sonhos irrealizados, passeie a vida
Porque nunca mais nos separaremos, e como grandes e velhos amigos, nos cuidaremos até morrer.
Coragem para resolver.









domingo, 4 de setembro de 2011

Eu estou de saco cheio



Cansei. Não tenho mais saco. Estou porrrr aqui.
Até bem pouco tempo, me interessava e queria saber de tudo que ia pelo mundo.
Haja! Quero que se exploda.
Meio ponto na taxa selic e a TV só fala disso, as bolsas ficam loucas, economistas discutem veementemente: “foi precipitado”, “foi pressão política”! Não dou a mínima nem entendo nada. A inflação vai disparar, perdemos o controle.
O futuro do mundo árabe? Deus! Sei que isso é do interesse do mundo, mas a gente sabe que uns poucos vão resolver o que bem lhes aprouver então: eu é que vou me preocupar?
O Brasil vai crescer menos 0,5% do que se esperava. Pô! Mas o Brasil não era a bola da vez? Não encabeçava a sigla BRIC? Os BRICs não estão crescendo a taxas imensas? Menos nós? Ah cansei de esperar que chegue esse dia.
E também 0,5%, cá pra nós, não é para o ministro e a presidenta descontenta ficarem na nossa frente na TV horas a fio.
E por aí vai. Não entendo, não quero entender e tenho raiva de quem entende. De um lado nunca se consumiu tanto, nunca teve tanto emprego e de outro o PIB dá prá trás. Azar o dele.
E a corrupção? Não dá nem pra falar... eca. Salário do judiciário... eca.
Não quero mais saber de nada. Viva o Tele Cine Cult. Alienei-me. Só quero ver filmes e ouvir piadas de gente engraçada. Sou café com leite. Tô de altos.
Onde está Kadafi? Sei lá, vai perguntar pra mim?
E os 10 anos do nine/eleven? Quem agüenta mais? Esse Bin Laden fez dois serviços: planejou o maior ato terrorista de todos os tempos e nos condenou a nunca mais parar de ouvir falar disso.
Que mundo sacal e hipócrita. E a imprensa se achando. Pensando que pode analisar fatos. Que tem as informações confiáveis. Tem nada. Quem tem não conta.
Hoje uma amiga que amo, postou no FB uma matéria do Estadão que ela julgou ótima sobre a ética do capitalismo. Desculpa Alice, mas nem abri. Capitalismo lá tem ética? Invade países, mata milhões, faz e desfaz em nome de mercados sem pensar um minuto nas pessoas e vem me falar de ética?
Agora a China quer comprar um pedaço da Islândia! Alooooooou!!! Já ouviram falar em negócio da China?
Sustentabilidade, ecologia, democracia, direitos humanos... tudo isso me encheu total.
Peguei meus dois jornais de domingo na porta, me deu esse entojo só de ler as manchetes, vim aqui escrever e assim que acabar vou separar as coisas amenas e compreensíveis e para o lixo com essa encheção da recessão americana. Só eles é que não sabiam? Até eu sabia que do jeito como as coisas iam não acabaria de outra forma. Danem-se. Eles e nós que vamos afundar junto. Mas não já estamos afundados mesmo?
Para terminar, farei uma confissão que alguns mais chegados já sabem e agora contarei para o mundo. Pode todo mundo rir e dizer que sou louca, não me importo: assunto chato sobre qualquer coisa na TV, só quando tiver o William Waack, ou seja, Jornal da Globo e Globo News Painel. Só.
Sou apaixonada por ele. Engulo qualquer assunto só para ver aquela covinha no queixo e as mãos quando é Globo News Painel e elas aparecem muito bem. Alice, para de rir ou conto seu astronômico segredo.
Por falar nisso, ontem no GNP teve um debate sobre o futuro da Líbia – insuportável, mas com “ele” vá lá. E aqueles cientistas políticos todos empertigados e cheios de uma retórica irritante, dizendo que vai demorar muito até a Líbia se configurar como estado democrático, onde os cidadãos comecem a refletir, a se expressar e a fazer valer sua vontade e construir seu futuro. Vem cá, onde é que tem isso? Nem no ocidente e estão esperando na Líbia? A pessoa pra ouvir isso tem que ter muita paciência.
Voltando ao William que é o que interessa: ainda tem aquele ar superior e desapaixonado que lhe confere um charme que me faz sonhar.
Com ou sem as grosserias que lhe atribuem, com ou sem gafes, trocando ou não Melo por Merda, com Iris ou sem Iris, de preferência sem Fabiana...
Só o William Waack me conecta com o mundo. Estou por um fio. E que fio!

Extra extra! deu no VAM NEWS que o fim do mundo previsto para 2012 foi adiado no Rio de Janeiro por falta de estrutura para abrigar um evento desse porte. Houve quem dissesse que eles podiam ter aproveitado as instalações da cidade do rock, que faltou foi vontade política. Esse assunto ainda está sendo investigado pelo MP e a PF. Onde foi parar a verba destinada ao fim do mundo?

sábado, 3 de setembro de 2011

Escolhas

Acabei de assistir um ótimo filme – Paris Vive à Noite que, diga-se de passagem, deve ser visto por todos aqueles que gostam de jazz, excelentes atuações e a presença de grandes músicos.
Paris Vive à Noite, talvez tenha sido feito com a intenção de ser um ótimo entretenimento, ao mesmo tempo em que revive (ou conta), algumas facetas de uma época de grandes questionamentos – o existencialismo, o racismo entre outros, e como os grupos se formavam, viviam e se divertiam – nesse caso, os músicos e as intelectualidades. Em outras palavras: o  documento de uma época, misturado com uma ficção que conduz a narrativa.
Nada além de um bom filme, não fosse eu sempre ser fisgada e começar a sofrer como um peixe no anzol, quando qualquer coisa – filmes, livros, conversas etc., me remetem aos vastos, obscuros e solitários caminhos das escolhas.
Não vou contar o filme, mas justamente o conflito “por trás” do documento e que prende o espectador, são as escolhas de dois jovens músicos americanos em Paris.
Ficar na cidade e estudar música seriamente e obsessivamente para descobrirem a dimensão real dos seus potenciais e talentos, ou seguirem as garotas que amam e deixar a música como está. Boa mas não grandiosa?
Sei muito bem que não tem certo ou errado. Que só lá na frente, dependendo do que aconteça, eles saberão.
Minhoca suficientemente grande para por em marcha meus pensamentos sobre o assunto.
Que a vida é uma sucessão de escolhas, disso já sabemos e de tanto ser repetido, já perdeu a força e a capacidade de se tomar esse fato como o “mais sério” das nossas vaidosas e breves existências.
Quando jovens, vamos fazendo nossas escolhas quase sempre baseados em visões de curto ou no máximo médio prazos. Vamos percorrendo nossos caminhos ou abrindo nossas trilhas do jeito que podemos, na medida das nossas forças, das oportunidades que surgem, do tamanho do ego que nos conduz, de acordo com nossas histórias, do que herdamos física e culturalmente, do tamanho da nossa auto-estima, coragem, sensatez, autoconhecimento, enfim...de tal forma que, quando mais velhos, possamos nos perdoar dizendo: “fiz o melhor que podia naquele momento, não posso me cobrar nada diferente.”.
É importante o auto perdão mas nem de longe ele apaga a sensação ou a certeza de não ter feito as melhores escolhas.
Às vezes essas escolhas mal feitas aparecem pontualmente – “devia ter estudado jornalismo e não matemática”, outras vezes, aparecem como uma sensação de mal estar geral, indefinido, amargo, sem solução aparente.
Outro dia li o relato de um psicanalista, dizendo que boa parte dos pacientes chega ao consultório desejando que o passado tenha sido melhor. Como entendo isso! E como sei que esse desejo é só fruto das escolhas que fizemos lá atrás.
Mas nada dessas reflexões têm sentido, se não me levarem a refletir sobre o que é que se faz quando, na segunda metade da vida (otimistamente), uma pessoa descobre que, no geral, suas escolhas não a conduziram a uma vida satisfatória (nem emocional, nem financeiramente) e, sobretudo, não realizou seus potenciais, nem a maioria de suas fantasias (sim, porque não se pode chamar de sonhoo algo pelo qual não se lutou. Sonho sem ação é puro delírio) e que, até mesmo muitas escolhas, foram na direção justamente oposta.
Falar em auto sabotagem, tendência patológica ao sofrimento ou qualquer coisa inconsciente, a essa altura tem muito pouco ou nada a acrescentar.
Querer que o passado seja melhor, também não.
A questão central é: o que fazer com essa realidade e com a incompetência de fazer escolhas?
A realidade está aí, mas a incompetência para fazer escolhas é o que?
Isso me fez lembrar a mãe muito sagaz de uma grande amiga que, lá pelos meus 16 anos disse: “A Cláudia compra relógios caríssimos e diz que não tem dinheiro para fazer análise”. Ela sabia que eu já era uma adolescente atormentada e detectava claramente minhas escolhas: relógios sim. Qualquer esforço para melhorar minha então frágil e insegura cabecinha, não.
A incompetência passa por não saber prever os efeitos das escolhas?
Pela preguiça de fazer as escolhas mais trabalhosas?
Pela falta de autoconhecimento?
Pela confiança no acaso que sempre haverá de nos proteger?
Pela arrogância e prepotência?
Por não saber discernir o que é importante do que não é?
Pela bagunça mental?
Pelo espírito de jogador?
Pela falta de compromisso?
Pelo descaso com a dor?
Pela crença de que nada faz qualquer diferença?
Eu não sabia no que esse texto ia dar. Não comecei com a conclusão pronta, e agora penso que acabei de achar o que estava procurando: por anos a fio, a última pergunta pautou minhas escolhas e não escolhas. Agora vejo.
Tanto fazia como tudo terminaria.
Ser feliz, infeliz, rir ou chorar, morrer pobre ou rica, ter amigos ou ser sozinha, ter ou não filhos, ter família por perto ou estar na mais completa solidão, correr mundo ou jamais sair de casa. Nenhuma diferença. Apenas finais diferentes para o absurdo a que todos chamamos vida e à qual, o valor que eu dava era, nem mais nem menos, o valor de alguém ter me posto no mundo e haver um tempo a estar aqui, sem saber direito para quê.
Foi esse o meu erro.
Avaliei mal.
Hoje quero tudo que antes não fazia diferença. Hoje tudo faz diferença.
Quero a plenitude, a fartura de tudo que é bom, quero amor, família, amigos, cheiro de café e bolo, de mato, de perfumes intrigantes. Minhas primas, meus irmãos, meus pais, um trabalho que eu goste muito, férias inesquecíveis, mares paradisíacos, muitos filmes, livros, divertimentos sem fim. Muitas gargalhadas, poucas lágrimas e só as dores inevitáveis.
Não plantei isso lá atrás. Não fiz as escolhas que me levariam a essas colheitas. Não tenho o direito de lamentar.
Mas, como diria meu pai se lesse isso, o jogo não acabou e, no futebol como na vida em um minuto pode-se virar o placar.
Peço então, a sabedoria de, aos 45 do segundo tempo, descobrir que estratégia me fará virar esse jogo.
Viva “Paris Vive à Noite”, que ainda nos dá de brinde, a nós mulheres, a visão onírica do Paul Newman jovem e maravilhoso.


 

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Uma gota do meu "sentir" Borgeano

Fiquei de escrever sobre Borges.
Nao, não sobre ele, sua vida e sua obra, mas minha experiência com ele, minhas sensações.
Que difícil que é. Estou me sentindo, pela primeira vez, alguém que precisa escrever e nem sabe por onde começar.
Primeiro, que há anos não pego um livro dele e, consequentemente, todas as emoções que ele me despertou estão guardadas em algum baú, do qual preciso encontrar a chave. Tenho certeza de que não joguei fora esta chave. Atirei longe muitas outras, mas não esta.
De modo que, nos últimos dois dias, fiquei fazendo uma viagem de volta ao tempo em que ele apareceu na minha vida para ficar para sempre, tentando puxar de lá os prazeres e as descobertas vindas daquele homem e sua obra.
Não sou uma crítica literária, nem pretendo. Aliás, disso me lembro, foi o próprio Borges que me deu essa força, confirmando que eu estava certa: “nunca leia críticas, ou interpretações dos livros. Leia “o livro”. Ouça a voz do autor. Às vezes é mais difícil, mas sempre você estará livre para concluir sua própria obra, sem intermediários” era o que mais ou menos ele dizia.
Ao contrário de outros autores, Borges foi um homem (felizmente), de muito falar. Concedia de bom grado muitas entrevistas, falava o que pensava, e tanto quanto ler um  de seus livros, tomar conhecimento de seu pensamento era – e é, muito gratificante, pois além de sábio e original, é de uma elegância ao falar, de uma humildade que só pode existir na grandeza de uma alma que, quanto mais lhe faltava em “enxergar”, mais lhe sobrava em sentir, desenvolver novos olhares e descobrir onde está a sabedoria.
Assim, tentarei pincelar “meu olhar”. Meu singelo e, talvez, tolo olhar.
Quando comecei a entrar no mundo Borgeano, sem nenhuma referência prévia, a não ser a de que era um grande autor, fiquei muito surpresa. Não entendia direito o que era aquilo e mais, não entendia muitos dos seus contos. O curioso, porém, é que seguia lendo avidamente com uma emoção e “facilidade” que só depois fui compreender.
Eu não entendia, a princípio, o que ele queria dizer com aquelas histórias, mas elas me davam muito prazer: eram gostosas, às vezes engraçadas, espirituosas. Outras vezes de uma impossibilidade genial. E o que mais me encantava era ver a “cara de pau” com que ele inventava referências, fatos, datas, nomes...tudo, para a gente ter certeza de que se tratava de um fato real e depois descobrir a deslavada mentira. Adorava isso. Sem apreender direito todo sentido, mas adorava.
Há livros difíceis e que se lê a duras penas. A crítica especializada enaltece a obra e a gente lê, mas que luta....Foi com o próprio Borges que aprendi que “se um livro for difícil de ler, o autor fracassou.”
O maravilhoso em Borges, para mim, foi que, mesmo não compreendendo muita coisa a princípio, não parava de ler de tão gostoso e notava que ia ficando cada vez mais à vontade com a obra (acho que o termo é esse, à vontade) a tal ponto que fui me tornando um pouco “dona” do que ali estava escrito, e fazendo, sem cerimônia alguma, minha própria obra a partir de tudo aquilo que ele sugeria.
Em outras palavras: Borges tinha seu próprio universo do qual, nós leitores, podíamos nos apropriar e perceber (ou inventar) como aquilo tudo se encaixava no nosso próprio universo.
O universo Borgeano é maleável e, sempre de ajeita dentro da gente.
Bom, isso traz graves conseqüências: a primeira, e mais óbvia, o leitor descobre, rápido, por que ele é um monstro sagrado: a obra é aberta. A obra é para sempre. Se só Borges escrevesse no mundo, se houvesse apenas os livros dele, não haveria do que reclamar. A cada vez que se relê, é um novo livro. Tudo que está lá é igual  mas o livro é outro. É uma obra eterna como poucas.
A segunda grave conseqüência é que, uma vez que se tenha sucumbido aos encantos Borgeanos, passa-se muito tempo, talvez a vida toda, a não querer ler mais “qualquer coisa”. A pessoa fica exigente, fica procurando mais em cada leitura e, muitas vezes, essa busca é bem decepcionante. Ou seja, diminuem as possibilidades.
A terceira, e talvez a mais grave, é que quando o leitor descobre em cada conto, em cada passagem, que ele está falando da vida - corriqueira, sonhada, inventada, externa, interna, interpretada, sentida - às vezes simples, às vezes absurda (mas o que é a vida senão tudo isso junto?), esse mesmo leitor passa a sofrer de um mal incurável: quer sentir essa totalidade em tudo que vê, toca, lê e - mal supremo, nas conversas que mantém cotidianamente. Mergulhar em Borges, segundo minha experiência, é dar adeus à admiração pela maioria das falas literais, pelo realismo puro (em todas as artes,  pseudo-artes, aspirantes à arte), pelos relatos lineares totalmente verdadeiros (só aceitáveis nas crônicas haha), enfim....é reduzir o universo dos grandes livros, dos grandes filmes, das grandes músicas, das grandes obras plásticas e, inferno total, dos grandes interlocutores, a muito poucos.
Quer me parecer, nesse momento, que as três consequencias são as mesmas, mas deixemos como está.
E aqui tenho que citá-lo mais uma vez::
“A Bernard Shaw perguntaram uma vez se acreditava que o Espírito Santo havia escrito a Bíblia. Ele respondeu: Todo livro que vale a pena ser lido foi escrito pelo Espírito.E eu contesto: Todo livro que vale a pena ser relido foi escrito pelo Espírito.”
Se pensarmos em todo o alcance dessa afirmativa, veremos que o Espírito aparece de quando em quando nesse mundo. Talvez não em outros (mundos). 
Agora que comecei, poderia escrever para sempre. O baú se abriu e dele querem saltar infinitas formas de ver, de pensar, de falar. Feche-se o baú por falta de espaço e de disponibilidade dos leitores (os meus, não os dele).
Percebo hoje, que foi um erro ter passado tanto tempo sem reler Borges – teria sido uma forma de “respirar” de que tanto  precisei ao longo dos anos.
Poderia listar meus contos preferidos, minhas imagens preferidas...mas vou sugerir que cada um se entenda com Borges. Quem nunca se deu esse prazer, jamais é tarde. Quem já se deu, adoraria que conversasse comigo e contasse suas experiências: duvido que haja duas iguais.
Só vou terminar falando de uma imagem que jamais me saiu cabeça: a do livro infinito.
Resumindo: “um homem deu a outro, como um presente ou troca por outra coisa (não me lembro bem), o livro infinito. O que não tinha primeira página nem última página. Nem começo, nem fim. O que recebeu o livro, feliz e incrédulo, começou a testar: pegava com os dedos as poucas primeiras páginas e elas logo viravam umas 900 páginas. O mesmo com as últimas. Seguiram-se inúmeras tentativas inúteis de “pegar” as primeira e última páginas.
O homem, percebeu que aquilo era um presente que o deixaria louco (pergunta minha: quantos, dentre nós, somos capazes de lidar com o infinito?). Então achou que era um livro amaldiçoado e queria se livrar dele. Pensou em fazer uma fogueira mas teve medo que a fogueira fosse, também, infinita. .
Não me lembro a continuação, mas um livro infinito, para mim, é o livro Borgeano e em última análise, as infinitas possibilidades de vida – quer as vividas, quer as não vividas mas que seriam possíveis. E não, não há com o que se preocupar: a fogueira não é infinita porque os livros são de papel e nunca têm mais de 200 páginas. Mas o que é o livro senão o que ele contém e o que reverbera no leitor?
Bom, nesse caso a fogueira pode, sim, ser infinita.

Em tempo: Um dos meus contos favoritos, talvez porque tivesse tudo a ver com uma situação que vivi anos depois e que me remeteu ao conto, é "Exame da Obra de Herbert Quain", contido no livro Ficções.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Jorge Luis Borges

Santo Deus! O aniversariante de hoje e homenageado pelo Google é nada menos que Jorge Luis Borges, ou apenas Borges como o chamávamos na mesa do bar, discutindo seus contos e trocando livros e ideias. 
Borges marcou uma época muito especial de minha vida. Uma época cheia de descobertas culturais, de autores maravilhosos e da arte em geral.
Não posso jurar, mas acho que li todos os seus livros. E quanto mais lia mais me apaixonava.
Essa data, e a homenagem, me pegaram de surpresa, num raro dia em que só abri o Google à tarde. E teria tanto para compartilhar sobre Borges e as grandes questões que ele foi capaz de trazer à tona.
Hoje não tenho tempo, mas não poderia deixar passar em branco.
Feliz Aniversário e em ótima companhia Mestre!