quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Não


Durmo o sono dos injustos
Sinto o cansaço dos que nada fazem
Acumulo em mim todo sentimento dos que não amam
Dilacera meu peito a dor dos que não lamentam nada
Celebro, sem pudor, a vida que não justifico
Morro, a cada dia, um pouco da morte que jamais viverei.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Procura-se um prazer desesperadamente


Hoje, conversando com uma amiga muito querida, ela me disse que eu precisava voltar a escrever no Blog. Respondi, meio querendo me livrar da obrigação de pensar em algo tão sério, que a vontade de escrever havia me deixado mas que tinha certeza que seria passageiro. Sei que não convenci nem a ela nem a mim. A cada pergunta sobre minhas atividades mais corriqueiras a resposta era a mesma: “isso não tenho tido vontade de fazer, mas já já volta”. E desliguei o telefone com a amarga sensação de que nada mais me deixa contente ou me entusiasma. Pior, nada mais me parece necessário e o que dirá suficiente para viver. E digo:  não é depressão por que essa conheço muito bem.
Desligamos e, claro, o assunto ficou me rondando, mas não me atacando o suficiente para que eu tomasse uma decisão. Vi uma novela atrás da outra – coisa impensável até bem pouco tempo, vi o jogo do Flamengo, mais novela, séries no Universal Chanel e o assunto da minha falta absoluta de prazer como pano de fundo para toda essa tentativa de anestesiar meus sentimentos através da tv.  Mas foi justamente da telinha que veio a grande inspiração. Num especial do Gil na Globonews, alguém perguntou se tinha sido difícil deixar para trás suas raízes e ele disse que toda planta viva tem o privilégio de sempre achar solo fértil e criar novas raízes. Que ele mesmo, por vezes dolorosamente, era obrigado a se “arrancar” e se plantar de outra forma, em outro lugar e em novas condições.
Foi o que bastou para que eu começasse a pensar seriamente no que é que não estou conseguindo arrancar. Concluí, pelo menos momentaneamente que me é muito difícil acordar. Acordar de verdade, com vontade, com prazer. Riam ou pasmem, não me libertei do vício. Enquanto fumava, abrir os olhos e pensar em um café fumegante, uns três cigarros e o jornal, me fazia pular da cama. Prosaico? Bobo? Pode ser, mas era assim. E daí para engatar o dia era muito fácil. Tudo fazia sentido, até os contratempos.
 Nos primeiros dias sem nicotina, a autoestima por estar fazendo algo muito difícil e o foco nessa tarefa hercúlea dão conta de desviar a atenção. O café e sua “força” resolvem. Depois viajei um mês e, acordar, tomar um café e sair para passear de férias e em cidades lindas com tanta coisa para ver também “dava uma onda”. Depois tudo foi perdendo a graça sem que eu me desse conta. Estou tirando aí os períodos brabos de dores etc. E nem estou falando de acordar por “ter” que acordar. Porque há um compromisso. Estou falando em ficar feliz por acordar porque alguma coisa muito estimulante está aguardando. Penso que nunca mais li o jornal de cabo a rabo como costumava. Meu cantinho de fumar e ler na varanda  está abandonado há mais de um ano. Eu não me achei de novo nem dentro de casa.
Talvez se morasse com alguém e tivesse para quem dar bom dia e conversar já fosse um prazer. Minha filha já saiu quando acordo. Mesmo assim tenho dúvidas. São muitos anos morando sozinha e provavelmente companhia pela manhã mais me faria querer dormir que acordar.
A pergunta que não sai hoje da minha cabeça é: como de descobre um prazer que seja diário e de intensidade regular? Experimentando? Talvez. Mas é preciso que se torne um vício? Pode ser a endorfina dos exercícios mas isso demora um mês ou mais para virar indispensável Se [re]plantar é isso? E se for o contrário? A meditação? Ou ir à praia? Ai, se ao menos eu gostasse de um esporte... Porque o prazer é um animal de múltiplos tentáculos. É um polvo que agarra toda a nossa vida e nos faz querer ter outros prazeres: ler, trabalhar, ter amigos, fazer nada, contemplar. É preciso uma ignição. Um prazer fundamental ou inicial.
Não acho de todo fútil que esteja falando do cigarro. Estou, de fato, me referindo a um ritual quase religioso e que durou uns quarenta anos. Não se pode subestimar.
Tentei resgatar, confesso, na ausência de coisa melhor. Armei-me de tudo: cigarros, isqueiro, café. Falhou. Enjoei, tossi...não consegui. Um prazer não volta só porque você quer. Não dá para gostar de novo de quem você não gosta mais. É preciso entender, muito bem entendido, quem você se tornou, onde foi que se perdeu, e o que foi que perdeu. Então se [re]plantar em solo para o qual sua plantinha atual esteja mais propensa a crescer e frutificar. Falhei em meu próprio diagnóstico. Confundi o que eu precisava fazer com o que os médicos precisavam fazer. Aliás, falhamos ambos.
Comecei escrevendo esse texto que me obrigarei a publicar embora tenha a sensação de que poderíamos classificá-lo na quinta categoria. Eu tinha prazer em escrever. Tive agora. É um começo. Acho.
São três horas da manhã e o prazer que me fará dar bom dia ao sol terá que ser outro. No entanto, fico contente por hora. Por ter entrado na nave do tempo e aterrissado num passado em que só a noite me era completamente prazerosa. Isso foi há muito tempo.






sexta-feira, 13 de julho de 2012

Ensaio de uma breve despedida

Você achava que não tinha certeza sobre seu futuro. Você sabia isso com uma certeza para lá de incerta. Tudo podia  ser.
Pensa ter certeza de que você não tem certeza.
Pensa saber que sua vida virou de repente e vai, com certeza, lhe arrastar para onde você não quer ir.
Pensa a correnteza, o roda-moinho, a falta de ar, o afogamento. 
Pensa o esforço para escapar. Pensa desistir.
Ao contrário de tudo que pregam as filosofias e psicologias que dizem não desista, você quer se acomodar com sua nova posição.  Quer se largar, se acoitadar, chorar, abrir mão.
Abrir a mão. 
E por ela deixar escorrer sonhos, planos. Seus últimos sonhos e planos. Guardados com tanto carinho.
Você quer sentir seu medo em paz. Você não sabe medo exatamente do quê, mas sabe que vai ser muito ruim e sua espinha gelada lhe lembra disso o tempo todo.
Você não quer que o mundo lhe pergunte mais nada porque simplesmente você não tem as respostas.
Você quer o silêncio e eventualmente o barulho do seu nariz fungando.
O medo não foi o eterno precursor do seu mau-humor?
O medo não foi desde sempre o causador de muito e muito sono?
Me deixem com meu medo e mau-humor que eu acabo dormindo.
E um  pouco dormindo, um pouco acordada, seguirei como uma condenada perfeitamente conformada.
O que já não quero mais é fingir. É pretender.
Tenho medo. Tenho vergonha. Tenho tristeza.
Não me reconheço e quem sou hoje é de todos e de mim desconhecida.
Acho que estou ensaiando uma despedida.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Brincando na solidão do passar das horas


temhorasemnomenenhum
horasqueparecemtransparentes
seagentequerverficatudoconfuso
horasqueosersecansadeserum

sábado, 26 de maio de 2012

Eu não sou cachorro não


Adoraria colocar mais açúcar em meu olhar, abanar o rabo, babar
E ter a sabedoria de só amar. Incondicionalmente.              
Adoraria saber voar e cantar de manhã e ao entardecer e
Ser o anjo alado da celebração da vida e do eterno renascer
Adoraria ser uma grande e plácida montanha, coberta de árvores silenciosas
E saber para sempre calar e viver ao sabor do vento, do jeito que soprar

Se não sou criatura divina, nem cão, nem pássaro, nem montanha, nem árvore
Se sou ser das trevas e do pecado; se comi a maçã que não devia
Para que teimam em me comparar com esses seres a quem não foi dado tão simplesmente:
pensar?

Estou muito cheia das frases de caminhão dos monitores de tela plana;
Estou muito cansada das eternas repetições de bobagens cheias de pretensão;
Da mediocre auto ajuda ocidental maquilada de sabedoria oriental do Dalai Lama;
Dos conselhos tibetanos, atirados aos porcos de Copacabana.

Não sou cachorro, passarinho, pedra, lago, árvore e nem montanha
Sou gente: outra composição
Tenho neurônios que se ligam em sinapses complicadíssimas, eles não.
Sendo assim, temos questões diversas: nossas matérias, saberes, pensares e quereres
são diferentes: por definição.
Penso, existo. Todos os outros existem sem pensar.
Por favor: parem de nos comparar!


segunda-feira, 21 de maio de 2012

Não nos deixem. Nós não podemos suportar


Eles vão saindo de cena sem se despedir
nos deixam de cara só com a notícia, com o estupor,
com a raiva e o rancor por ter que ser assim
sem imaginar que nossas vidas empobrecem, sentem pena e se deparam com o fim.

Perdemos nossos ídolos e o mundo se apequena não porque eles foram
mas porque nós ficamos: náufragos em uma ilha condenada a ser desabitada
Compulsórias chegada e partida.
Entre uma e outra, nossas construções: frágeis ou admiráveis
Morre John Lennon e morro um pouco eu porque sou jovem e ele ainda me traduziria
Morrem Elis, Gonzaguinha, Raul, Tim, Cazuza e morro muito eu
porque nossas verdades são muito as mesmas e ao se calarem
me calam a mim, que contava com eles para um falar corajoso, comovente e competente.

Morrem Michael, Donna, Whitney, Robin e pronto: meus melhores anos ressuscitam
apenas para gritar que a irremediável hora da minha própria morte está perto
Minha juventude, minha alegria, minha inocência, minha pouca crença no fim
abrem finalmente espaço para o estranhamento, as perguntas sem resposta,
o  gosto amargo sempre disfarçado de riso e esquecimento,
de frases feitas e prontas para  fazer suportar melhor o insuportável.

Estou de frente para o sol.
Por quanto tempo se pode encarar o sol sem cegar?
Minha morte me cega.                                                                                                                              
Preciso dos óculos escuros da morte alheia, da música alheia
Preciso curtir a obra de quem foi capaz de deixá-la para nunca desaparecer de fato.

E quando morrerem os que só me deixarão sua falta?
Uma falta sem obra a que recorrer na saudade?
Que farei diante do vazio?
Quem dará conta da tristeza? Quem acalmará minha estranheza?

Os Bee Gees nunca morrerão.

Quem morrerá serei eu



domingo, 6 de maio de 2012

A desert road from vegas to nowhere


Quanta dor é preciso sentir para que seja legítimo reclamar
sem chatear?                         
Tolo que és, não há essa medida!
Se queixar, é já ultrapassar o limite tacitamente combinado.
Eu sou, tu és, ele é: feliz!
Quem não é saia da roda.
Não tem dança prá quem cansa.
Muito menos prá quem diz.

Por uma absurda negação do esperado,
até médicos sentem enfado.
Devias ficar calado.
Motoristas  e doutores suplicam: falem somente o indispensável.
Os primeiros, para não se distraírem  e melhor te conduzirem;
Os segundos, para nem ouvirem tua voz quando te jogarem sozinho no deserto sem saída,
Sobretudo prá quem grita.

Não quero mais palavras, nem lamentos, nem amargos fingimentos
Quero o silêncio dos mortos, dos conventos, dos monges.
Não vou  para Pasárgada  porque não sou amigo do rei e nem sei para que lado fica
Quero uma verdade poeirenta, crua, aflita
Que me deixe cara a cara com a dor, o mau humor, o sem sabor
Mas me mostre que tudo pode virar amor.
Quero ir para onde haja fé.
Eu sei onde é Bagdá Café.